quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Prefeitura interrompe revitalização do Fazenda da Restinga

10/08/2017 - O Globo

Há divergências sobre processo de doação do espaço, que foi construído pelo shopping em 2000
   
POR LUCAS ALTINO 

Revitalização começou no fim de 2015 - Fábio Rossi

RIO - No fim de 2015, a prefeitura iniciou o projeto de recuperação do Parque Fazenda da Restinga, espaço de 40 mil metros quadrados localizado atrás dos shoppings Downtown e Città America, às margens da Lagoa da Tijuca. Desde então, o trabalho já resultou na retirada de cerca de 90 leucenas — espécies invasoras — e na recuperação de alamedas e trilhas. Mas o serviço está paralisado, devido a um imbróglio com o Città em torno de questões fundiárias.

As ações da Secretaria de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma) no local foram paralisadas no começo do ano. Na mesma época, administração do Città America movimentou o gradil de limite do centro comercial, avançando dois metros sobre o terreno do parque.

Segundo funcionários do Fazenda da Restinga, a área do parque, constituído pelo Città America em 2000, como medida compensatória por sua construção, nunca teria sido devidamente doada ao município, faltando ainda a oficialização, por meio do Registro Geral de Imóveis (RGI). Empregados da firma terceirizada que prestava serviço no local chegaram a relatar que a administração do shopping teria impedido sua entrada no terreno. Procurado pelo GLOBO-Barra, o Città respondeu apenas que “não tem gerência sobre o Parque Fazenda Restinga” e que a intervenção do gradil foi feita com autorização da prefeitura.

Já a Seconserma confirma a disputa com o centro comercial e diz entender que houve, sim, doação, e que a área é pública. Informa que está verificando a “veracidade da alegação do Città America sobre a propriedade da área” e que entende que “a mudança de alambrado e reivindicações do shopping são equivocadas”. A pasta acrescenta que tem a intenção de “transformar o local em área de proteção ambiental, onde se planeja criar uma área de preservação perilagunar, ligando o Parque Mello Barreto (atrás do BarraShopping) à Fazenda da Restinga”.

Mudança. Alegando ter autorização da prefeitura, o shopping Città America deslocou o gradil que determina seus limites e avançou dois metros sobre o terreno do parque

Com projeto do paisagista Fernando Chacel, o Parque Fazenda da Restinga esteve sob responsabilidade do Città America, que o havia adotado, até 2010. Depois desse período, o local se deteriorou, e a proliferação de árvores exóticas, em especial as leucenas, ameaçava as espécies nativas. Em 2015, a prefeitura começou a revitalização da área.

No escopo do projeto estava a regularização da situação fundiária, o que ainda não foi feito. Na época, a prefeitura anunciou também que tinha a intenção de recuperar 3,5 hectares da faixa marginal de proteção do Canal de Marapendi, reparar a torre de observação do parque e construir 700 metros de ciclovia, ações que também não chegaram a ser realizadas

Distrito cultural da Lapa será ampliado até o Rio Antigo

10/08/2017 - O Globo, Giselle Ouchana

Ponto da boemia carioca, a Lapa terá sua área de influência ampliada. O decreto de julho de 2000, que criou o distrito cultural do bairro, permitindo ocupações culturais em imóveis públicos, terá alcance maior para estimular o movimento na região, que também vem sofrendo os efeitos da crise. O anúncio foi feito ontem pelo secretário estadual de Cultura, André Lazaroni, durante um seminário que reuniu empresários, produtores culturais e autoridades. A ideia é expandir o decreto para o Rio Antigo, que abrange a Rua do Lavradio, a Cinelândia, a Praça Tiradentes, a Rua da Carioca e o Largo do São Francisco.

- Os imóveis da Lapa, em sua maioria, são públicos. O decreto que já existe permitiu que esses imóveis fossem ocupados culturalmente por pessoas físicas ou jurídicas. Hoje, alguns estão ocupados e outros, invadidos. O que a gente pretende é fazer um novo decreto com alcance até o Rio Antigo, como parte das estratégias de ordenamento e segurança dessas regiões - explicou Lazaroni, que acionou a Procuradoria-Geral para atuar na reintegração de posse de três imóveis do estado invadidos na Avenida Mem de Sá.

Uma campanha para promover ações dia e noite na Lapa também será lançada. O "Eu Amo a Lapa" seguirá o modelo do Boulevard Olímpico para atrair público. A iniciativa privada quer mais segurança e sugere que equipes do projeto Lapa Presente atuem 24 horas. Atualmente, os policiais só reforçam a segurança à noite e de madrugada.

- Esse é um projeto vitorioso, mas precisa ser ampliado. A Lapa é um símbolo e atrai muita gente. É preciso uma atenção especial- disse o presidente do Polo Novo Rio Antigo, Thiago Cesário Alvim.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Casa do Capão do Bispo está sem vigilância há um mês

06/08/2016 - O Globo

Local passou a ser frequentado por usuários de drogas
   
POR THALITA PESSOA 

Histórico. Casa do Capão do Bispo está abandonada desde 2011 - Guilherme leporace / Guilherme leporace

RIO — Sem uso desde 2011, quando o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) deixou de funcionar no local, a Casa do Capão do Bispo, em Del Castilho, agora enfrenta um perigo real de invasão. O local, que contava com vigilância 24 horas, há mais de um mês não tem qualquer tipo de segurança. O motivo, segundo moradores e comerciantes, é a falta de pagamento dos vigilantes pelo governo do estado, que administra o local. Sem qualquer supervisão, usuários de drogas têm frequentado o local.

— O portão de ferro que fecha o terreno caiu com uma ventania. Alguém colocou em pé de novo, mas existem reclamações de moradores de entra e sai de usuários de drogas, principalmente à noite — relata a designer Claudia Waddington, que trabalha perto ao local.

O bancário aposentado Antônio Soares e Gusmão queixa-se do estado de abandono.

— Um local deste sem qualquer cuidado ou vigilância tem tudo para virar uma cabeça de porco se continuar assim — diz ele, que mora no bairro, lembrando que a construção é uma das mais antigas propriedades rurais do estado do Rio e sua casa, sede da fazenda, é o que sobrou da sesmaria doada por Estácio de Sá aos jesuítas.

Procurada, a Secretaria de Cultura do estado informou que encaminhou projeto de restauro da sede-casa para o orçamento. Mas que, “devido às dificuldades financeiras que o estado enfrenta, a contratação dessas obras ainda não foi possível" e que busca parcerias para que a recuperação aconteça o mais brevemente possível.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

'Chuveirinho' instalado em marquise causa polêmica em Copacabana

07/08/2017 - O Globo

Sistema serviria para afastar moradores de rua de prédio em cima do cinema Roxy
   
POR GUILHERME RAMALHO / RENAN RODRIGUES

Sistema joga água debaixo da marquise do cinema Roxy, em Copacabana - Domingos Peixoto / Agência O Globo

RIO - Uma espécie de “chuveirinho”, instalado na marquise do edifício do cinema Roxy, em Copacabana, causou polêmica neste fim de semana. O síndico afirma que o dispositivo foi instalado para regar um futuro jardim que será construído no local, mas, de acordo com alguns moradores, o equipamento foi instalado para afastar o tumulto causado por pessoas em situação de rua que se abrigam debaixo do prédio de número 45 da Rua Bolívar. Presidente da Sociedade Amigos de Copacabana e morador do bairro há 50 anos, o advogado Horácio Magalhães filmou os canos aspergindo água do teto na sexta-feira e postou um vídeo na página da associação no Facebook.

Até a noite de ontem, mais de 18 mil pessoas já tinham visto a cena. Enquanto exibia a calçada toda molhada, Horácio criticou a falta de ação da prefeitura para a retirada de moradores de rua:

“Se a prefeitura não resolve o problema, o cidadão resolve. Estamos em frente ao cinema. Foi instalado um dispositivo: molha a calçada, e a população de rua não se concentra. É a solução que o cidadão encontra quando o poder público não resolve o problema. Infelizmente, a nossa situação na cidade e no nosso bairro está dessa forma. A prefeitura não toma providência, e o cidadão acaba tomando. É isso aí. Onde vamos parar”, disse Horácio no vídeo.

Ao GLOBO, ele disse não concordar com a instalação da engenhoca, mas que entende o motivo.

— Claro que isso não é o tipo de atitude que a gente encoraja, mas a gente entende o que motivou. População de rua virou um problema crônico. Muitas pessoas ficam receosas de passar na calçada, não sabem se vão pedir esmola ou ser assaltados. Essa discussão é macro, com vários aspectos. Tem um aspecto social, mas tem a da segurança. Chegou ao ponto de ter um pedinte em quase toda esquina. Muitos ficam postados em frente aos bancos. Mulher e idoso ficam receosos. Eu fico com um pouco de receio porque eu não sei se ele vai me pedir (dinheiro) ou se vai me roubar — afirmou Horácio.

'ELES FUMAM CRACK, CHEIRAM COLA, FAZEM SEXO À LUZ DO DIA', DIZ CONDÔMINO

Três moradores do Edifício Roxy confirmaram a informação de que os “chuveirinhos” foram instalados pelo próprio condomínio para afastar os moradores de rua. A secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Teresa Bergher, esteve no local neste domingo para apurar as denúncias e disse que vai acionar a Secretaria municipal de Urbanismo para multar o condomínio, caso a irregularidade seja comprovada. A Gerência de Licenciamento e Fiscalização da Zona Sul informou que fará hoje uma vistoria no local e, se necessário, “tomará medidas, como notificar o proprietário".

— Isso é um absurdo, uma irresponsabilidade e falta de humanidade. A lei nos impede de agir, porque permite que essas pessoas deixem os abrigos e voltem a dormir debaixo das marquises. Não vou aceitar nenhuma violência contra os moradores de rua — disse Teresa Bergher.

Um morador do Edifício Roxy, que preferiu não se identificar, disse que antes de instalar o equipamento foram feitas várias reclamações à prefeitura. Mas a situação ficou insustentável.

— Já fizemos várias reclamações. Então, todo mundo concordou em instalar. Um pouquinho de água não mata ninguém. A gente não quer incomodá-los, mas temos que tomar alguma providência. Eles fumam crack, cheiram cola, fazem sexo à luz do dia, brigam toda a noite e não deixam ninguém dormir — contou.

Nem todos os moradores da região, no entanto, concordaram com o equipamento.

— Isso é surreal, desumano, radical e completamente errado — criticou o aposentado Jorge Coelho Neto, de 71 anos. — Os moradores de rua não estão aqui porque gostam. São seres humanos iguais a gente. Não tem que matá-los, mas cuidar deles.

Um dos gerentes do cinema Roxy disse não saber quem instalou os canos. Já o síndico do edifício informou à prefeitura que o sistema foi feito para um futuro canteiro de plantas. O GLOBO entrou em contato com o síndico, mas ele não quis comentar o assunto.

Imagem do Google Maps mostra moradores de rua no local - Foto / Google Maps


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Levantamento mapeia as 15 ruas com mais roubos a motoristas no Rio

24/07/2017 - O Globo

A via recordista é a Avenida Pastor Martin Luther King Junior. Confira o ranking
   
POR RAFAEL SOARES 

Avenida Brasil ficou em segundo lugar no ranking de ruas com mais roubos - Márcia Foletto / Agência O Globo

RIO - Perigo na via: apenas 15 ruas concentram quase um terço de todos os roubos a motoristas do Rio. Foram analisadas mais de 1,8 mil ocorrências do crime “roubo no interior de veículo”, registradas em todas as 42 delegacias distritais da cidade, para descobrir quais os locais e horários o motorista deve evitar ao se deslocar pelo Rio.

A via recordista em ocorrências do tipo é a Avenida Pastor Martin Luther King Junior — batizada em homenagem a um pacifista —, que registrou 157 roubos a motoristas nos seis primeiros meses do ano, média de quase um caso por dia. Um trecho de apenas 3km, dos 25km da via, entretanto, concentra quase 30% das ocorrências: o que liga a Linha Amarela, na altura de Del Castilho, ao Engenho da Rainha. O horário com mais casos de roubos é o fim da madrugada. Ao todo, 42 das 157 ocorrências aconteceram das 4h às 6h.

Para a moradora de Inhaúma Renata Aguiar, os dados refletem uma realidade que ela enfrenta e é vítima. Há 15 dias, foi assaltada, segundo conta, quando voltava para casa por usuários de crack. Os carros passam por ali em alta velocidade para fugir do perigo eminente.

— Todo fim de semana, por volta das 9h, os carros têm que voltar na contramão na altura da entrada da favela da Galinha (próximo à garagem da empresa de ônibus Braso Lisboa e a cerca de 1, 5km da 44ª DP por causa de arrastão. Uber, à noite, diz que não traz até aqui, pois é perigoso — diz a técnica em enfermagem.

A região, próxima ao shopping Nova América e à 44ª DP (Inhaúma), é umas das preferidas de criminosos para arrastões no trânsito. Os crimes também acontecem na Linha Amarela, quarta colocada no ranking das ruas com mais roubos a motoristas, com 34 ocorrências. O trecho da via expressa com maior casos de crimes do tipo — cerca de um terço do total de registros — foi justamente a saída 5, na altura de Del Castilho, que liga a Linha Amarela à Pastor Martin Luther King Jr.

A Avenida Brasil, com quase 60km de extensão, ficou no segundo lugar do ranking, com 103 ocorrências. As outras duas vias que completam a lista das cinco mais perigosas, entretanto, são bem menos longas. A Av. Ministro Edgard Romero, com 2km, em Madureira, registrou 41 casos. Já a Avenida Francisco Bicalho concentrou 31 casos em pouco mais de 1km de extensão.

Das 15 ruas mais perigosas para motoristas na cidade, 13 se localizam na Zona Norte ou têm parte de sua extensão na região. Somente duas ficam no Centro.

RUAS DO MEDO

Roubos a pedestres - Neste domingo, o levantamento revelou que 50 ruas concentram um quarto de todos os roubos contra pedestres na cidade. No topo do ranking das vias mais perigosas do Rio está a Avenida Brasil, com 683 registros — uma média de quase quatro roubos por dia. Empatadas, na segunda colocação, as avenidas Presidente Vargas, no Centro; e Pastor Martin Luther King Júnior, que corta a Zona Norte, tiveram 307, cada.

Presos - A Operação Centro Presente prendeu, em um ano, 130 pessoas acusadas de roubo e furto só na região da Central do Brasil. Os dados são do capitão Hugo Coque, que comanda a operação. No total, foram 2.500 pessoas detidas pela ação, sendo que 528 na Avenida Presidente Vargas — uma média de quase dois casos por dia. E, dos 412 mandados de prisão, a maior parte também foi realizada na via: 260.

Horários - Tanto nos casos de roubos a pedestres, quanto a motoristas, cerca de 40% das vítimas afirmaram, na delegacia, terem sido assaltadas à noite. O segundo período com mais casos, nas duas modalidades de crimes, é a madrugada. No caso dos pedestres, 22% dos casos aconteceram neste horário. Já nos casos com motoristas, foram 27%. O período da tarde é aquele com menos ocorrências nos dois casos

domingo, 23 de julho de 2017

Imóveis vazios do Rio precisam ter utilização

23/07/2017 - O Globo

Soluções existem, mas demandam vontade política e capacidade de gestão. Recuperar esses imóveis para uso ajudaria a revitalizar regiões que hoje estão degradadas
   
Não deixa de ser contraditório que o Rio tenha tanta gente sem moradia e, ao mesmo tempo, centenas de imóveis fechados, abandonados ou subaproveitados, muitos deles localizados em áreas com boa infraestrutura. Reportagem do GLOBO publicada no último domingo mostrou que, somente no Centro, há pelo menos 600 construções vazias, de um total de 4.400, segundo levantamento feito pela prefeitura numa região compreendida entre a Praça Quinze, o Outeiro da Glória, a Rua Frei Caneca e a Avenida Presidente Vargas. De acordo com a pesquisa, 85% desses imóveis são privados. Alguns estão em ruínas, como o sobrado na esquina da Rua do Riachuelo com Inválidos, um prédio do século XVIII tombado pelo Iphan, onde funciona um estacionamento. As poucas paredes que restaram de pé estão cercadas por andaimes.

Recuperar esses imóveis, dando-lhes destinação adequada, tem sido um desafio para sucessivas administrações. Mas especialistas apontam alternativas que poderiam ser seguidas pelo poder público. O arquiteto e urbanista Washington Fajardo defende a Utilização Compulsória desses imóveis — a que se refere como “o bom IPTU” —, instrumento previsto na Constituição federal, no Estatuto da Cidade e no Plano Diretor do Município, mas que ainda precisa ser regulamentado. Por esse mecanismo, o IPTU aumenta progressivamente se o imóvel permanecer fechado e, depois de cinco anos, pode ser desapropriado e até leiloado pela prefeitura. “É um mecanismo bom para o mercado imobiliário, para a política habitacional e para o patrimônio cultural. Não é um mecanismo fiscal, mas urbanístico, e também produz receita por causa da cobrança”, afirma Fajardo.

Já o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), Claudio Hermolin, sugere a concessão de descontos ou até a isenção de IPTU, por um determinado período, para estimular proprietários a recuperarem os imóveis, muitos severamente degradados.

Convém lembrar que já houve iniciativas bem-sucedidas nessa área. Uma delas foi o Programa de Apoio à Conservação do Patrimônio Cultural (Pró-Apac), da prefeitura, que destinou recursos para restauração de imóveis particulares tombados ou preservados. Outra experiência que não foi adiante é a compra desses imóveis pelo poder público para a realização de projetos habitacionais.

Ou seja, soluções existem, mas demandam vontade política e capacidade de gestão para serem implementadas. E não se trata apenas de uma questão estética. Reformar esses imóveis e dar-lhes uso são medidas importantes para revitalizar determinadas áreas, como a recém-urbanizada Orla Conde, na Zona Portuária, onde vários prédios estão desocupados. Poderiam estar movimentando a economia do mais novo ponto turístico da cidade.

Talvez um primeiro passo seja a recuperação de imóveis que pertencem ao município, ao estado e à União. Podem não ser muitos. Mas já seria um começo. E serviria de exemplo para os demais.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Grajaú-Jacarepaguá teve casos de violência em 14 dias de junho, segundo relatos

19/07/2017 - O Globo

Rotina de assaltos e tiroteios tem assustado motoristas e moradores da região


Território de medo. A Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, que tem trechos cercados por favelas e outros, por área de mata: riscos de arrastões e tiroteios
Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Território de medo. A Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, que tem trechos cercados por favelas e outros, por área de mata: riscos de arrastões e tiroteios - Custódio Coimbra / Agência O Globo
   
POR ELENILCE BOTTARI 

RIO - Já se foi o tempo em que a professora universitária Inês Meneses se sentia aliviada quando, a caminho de casa, chegava à Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá. O frescor da região, cercada pela Mata Atlântica do Parque Nacional da Tijuca, era indicativo de que, depois dali, estaria logo com a família. Mas essa sensação não existe mais. Hoje, atravessar os nove quilômetros de extensão da Avenida Menezes Cortes é, não só para Inês, um momento de muita tensão.

E não é para menos: só em junho, usuários alertaram em redes sociais a ocorrência de tiroteios e arrastões em pelo menos 14 dos 30 dias do mês, numa média de um caso a cada dois dias. A rotina de violência transformou a bucólica estrada na serra - inaugurada em 1950 para aproximar a região de Jacarepaguá do Centro - em mais uma via expressa do medo.

Só na última semana, quatro casos obrigaram a CET-Rio a interditar as pistas por dois dias consecutivos, devido ao risco de balas perdidas. Na quinta-feira passada, bandidos roubaram um caminhão com carga. No dia seguinte, houve um arrastão na via, no mesmo horário em que um policial militar foi morto num assalto no Grajaú.

Entre as principais causas para a mudança de perfil da autoestrada, estão o crescimento desordenado do Complexo do Lins - que fez com que brotassem inúmeros acessos nas margens da via, que facilitam a fuga das quadrilhas - e o alto índice de acidentes que param o trânsito, tornando os motoristas presas fáceis para assaltantes.

- Há 25 anos uso a Grajaú-Jacarepaguá, e, recentemente, a situação piorou muito. Agora em junho presenciei um arrastão. Tinha um carro atravessado na pista. Na hora, enviei uma mensagem para o meu irmão, que costuma passar por ali, alertando para o risco. Aliás, sempre que vou pegar o ônibus, verifico antes os alertas nas redes sociais - contou Inês, que também já foi obrigada a se jogar no piso do ônibus em que viajava durante um tiroteio.

Embora ocorram casos de violência em toda a extensão da via, alguns pontos são considerados mais perigosos por quem passa por lá. Do quilômetro 1 ao 3, trecho onde ficam os morros do Encontro, da Cachoeira Grande, da Cachoeirinha, do Gambá e da Cotia, os tiroteios são mais frequentes e há também registros de ataques a motoristas. Já chegando a Jacarepaguá, na altura do quilômetro 6, trecho cercado de mata e com menos policiamento, são muitos os arrastões.

- Aqui, perto do Hospital Federal Cardoso Fontes, tem um problema sério. As quadrilhas ficam escondidas perto da lixeira, esperando o trânsito ficar mais lento para atacar. Eles descem com fuzis e saem fazendo a limpa em carros e ônibus. Quando tem acidente, então, eles descem logo. E muitos carros tentam fugir na contramão, deixando o trânsito ainda mais caótico - contou uma servidora da unidade de saúde.

Dados do aplicativo de trânsito Waze, analisados pelo Centro de Operações Rio (COR), revelam que engarrafamentos na via podem chegar a atingir seis quilômetros de extensão. Isso representa dois terços da autoestrada, que tem, em média, um fluxo diário de 50 mil veículos em seus dois sentidos. Para o chefe executivo do COR, Marcos Landeira, a fluidez do trânsito tem ligação direta de causa e efeito com a segurança.

- Nossa preocupação ali é manter um fluxo de trânsito que garanta a segurança. Quanto mais engarrafada a via, maior a chance de arrastões e outros crimes - explicou Landeira.

Segundo ele, o alto número de acidentes também preocupa:

- Nosso conselho é que os motoristas procurem respeitar as normas de trânsito, para evitar os acidentes e permitir um fluxo razoável de veículos. Nós trabalhamos junto com a Polícia Militar para tentar desobstruir as pistas o mais rápido possível. Quando tem confrontos, a PM nos alerta e fazemos a interdição parcial ou total das pistas para evitar riscos - afirmou Landeira, acrescentando que em 2017 houve seis interdições por conta de confrontos.

Com nove quilômetros de extensão, a autoestrada está sob a jurisdição de três batalhões da PM e de quatro delegacias. A PM informou que sempre responde prontamente às ações criminosas no local, mas que "o grande trecho margeado por comunidades possibilita a ação desses criminosos que visam interromper o fluxo e cometer assaltos".