sábado, 28 de abril de 2012

Obra em via crítica de Niterói vai parar na Justiça

26/04/2012 - O Globo

Defensoria da União questiona demora para início da duplicação de avenida, que custará R$ 25 milhões e aliviará trânsito

Os congestionamentos são crônicos na Av. do Contorno, principalmente nos acessos à Ponte Rio-Niterói e em feriados prolongados Márcia Foletto/26-10-2011 / O Globo
RIO - Construída na década de 60 e saturada, a Avenida do Contorno, um dos principais gargalos do trânsito de Niterói, aguarda, há anos, por obras que nunca saem do papel e, agora, vão parar na Justiça. A Defensoria Pública da União vai entrar com uma ação civil pública contra a concessionária Autopista Fluminense, que administra a BR-101-Norte, para obrigá-la a dar início imediato ao alargamento do trecho de 2,5 quilômetros da via, junto ao acesso da Ponte Rio-Niterói. A ação será apresentada pelo defensor público federal André da Silva Ordacgy, que visitou o local em dezembro do ano passado. Ele decidiu adotar a medida porque as intervenções têm sido reiteradas vezes adiadas, embora a concessionária já disponha, de acordo com ele, de recursos e licença ambiental.

Desde 1974, o governo federal promete fazer a duplicação da via. A última promessa foi feita em janeiro, quando o prefeito da cidade, Jorge Roberto Silveira, e o secretário Especial de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, anunciaram que as obras começariam imediatamente, logo após o anúncio de que o município havia concordado em ceder parte da área do Cemitério de Maruí para a empresa fazer a expansão. Os investimentos estão estimados em R$ 25 milhões. Com a cessão de parte do cemitério, a área de produção de estaleiros, que também fica próxima, não seria mais afetada pela duplicação, o que chegou a gerar polêmica porque poderia causar desemprego.

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Ao que parece, está faltando vontade política para dar início às obras. Os prazos prometidos não são cumpridos e os envolvidos no problema vão postergando a solução de forma indefinida. Depois de várias promessas, garantiram que as obras começariam em março. Vamos reunir todas as justificativas enviadas à Defensoria e impetrar a ação civil pública. Este é o único caminho porque não conseguimos enxergar outra solução que não seja cobrar judicialmente o início das obras afirmou Ordacgy.

Em dezembro, o defensor público, ao visitar pessoalmente os pontos de constantes engarrafamentos nos acessos à Ponte Rio-Niterói, constatou que o afunilamento provocado pela Avenida do Contorno é responsável pelo caos diários na travessia do Rio até Niterói. Os transtornos se agravam nas sextas-feiras, principalmente, em fins de semana prolongados por feriados, como o do Dia do Trabalho, na próxima terça-feira. Ordacgy reclama da falta de medidas práticas, como a presença permanente de agentes de trânsito no local e reboques para retirada rápida de veículos acidentados ou enguiçados:

Há um sentimento generalizado de revolta com a situação da Avenida do Contorno. O caos se estende pela Ponte Rio-Niterói e chega às ruas do Rio. É um problema que todos conhecem e que, por certo, vai acontecer amanhã (hoje) quando começa a saída dos cariocas para a Região dos Lagos. A previsão é que 93 mil veículos cruzem a ponte neste fim de semana.

A Autopista Fluminense afirmou que o processo de liberação das áreas necessárias para as obras de ampliação da Avenida do Contorno segue de acordo com as leis vigentes, mas não informou quando os trabalhos serão iniciados. Segundo a nota, o projeto já foi aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas ainda faltaria licença do Ibama. Uma licença ambiental havia sido concedida em novembro de 2010, mas, com a mudança de traçado a expansão ocorrerá no trecho do cemitério e não mais na área dos estaleiros , um novo projeto terá que ser analisado e licenciado. Já a prefeitura de Niterói alegou que a questão tem que ser resolvida entre a concessionária e a União.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Obras no entorno da Rodoviária já têm data

24/04/2012 - O Globo

Rua ao lado da Novo Rio será fechada dia 30 para construção de alças de acesso à futura Avenida Binário.

Obras do Porto Rio Domingos Peixoto / Agência O Globo

RIO - Para dar a partida na construção das alças de acesso à futura Avenida Binário, que cortará toda a Zona Portuária, a prefeitura pretende interditar ao tráfego a Rua Comandante Garcia Pires, ao lado da Rodoviária Novo Rio, a partir do dia 30. O trânsito será desviado para uma pista nova aberta logo ao lado da via, dentro de um dos terrenos da Companhia Docas. Com a interdição, a rua será transformada em canteiro de obras, onde serão montados os pilares de uma das rampas que ligarão o Binário ao Elevado do Gasômetro.

Demolição de terminal depende de decisão judicial

De acordo com o presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), Jorge Arraes, as obras no entorno da rodoviária começarão pelas alças de acesso enquanto a prefeitura aguarda uma decisão judicial sobre o valor da desapropriação do bar Porreta, que fica na Praça Marechal Hermes, ao lado do Terminal Padre Henrique Otte e aos fundos da Novo Rio. Desapropriado pela prefeitura em janeiro, por estar no caminho do traçado da Avenida Binário, o bar deverá passar por uma perícia judicial nos próximos 15 dias.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Comunidades do Rio ganharão escadas rolantes para facilitar acesso a moradores

16/04/2012 - Agência Rio
 
Comunidades do Rio de Janeiro ganharão escadas rolantes públicas como forma de melhorar o acesso e o deslocamento dos moradores, afirmou nesta segunda-feira (16) o governador Sérgio Cabral, após conhecer as escadas rolantes na Comuna 13, em Medellín. Segundo o governador, já existem projetos executivos em andamento para que o equipamento seja implantado no Rio.

“Vamos levar para o Rio esta experiência das escadas rolantes combinadas com mobilidade urbana. A nossa intenção é associá-las com intervenções que facilitem o ir e vir da população. Neste momento, nos dedicamos a concluir os estudos executivos, o que ocorrerá nos próximos meses”, disse Cabral.

O governador ressaltou que as escadas rolantes representam uma solução de mobilidade urbana barata e que o Rio tem uma vantagem frente a Medellín, uma vez que não precisará importar a tecnologia para fabricar os equipamentos.

“O Brasil é fabricante de escadas rolantes, já a Colômbia teve que importar a tecnologia do Japão. Aqui (em Medellín), o projeto inteiro custou US$ 23 milhões, contando com as intervenções urbanas. As escadas rolantes custaram apenas US$ 8 milhões, incluída a infraestrutura necessária para a instalação. É isso que buscamos. Vamos integrar este projeto a um pacote de mobilidade urbana nas UPPs para melhorar ainda mais a qualidade de vida da população. Vamos implantar na Rocinha, nos complexos da Penha e da Tijuca, na Mangueira e em outras comunidades”, afirmou.
 
As escadas rolantes, que cobrem uma extensão de 384 metros, foram instaladas na região de Las Independencias, que fica na parte alta da comunidade e beneficia diretamente 12 mil pessoas. Com a instalação do equipamento, os moradores da parte alta reduziram de cerca de meia hora para cinco minutos o tempo do trajeto até suas casas na comunidade. A Comuna 13 tem cerca de 135 mil habitantes e, durante muito tempo, ficou conhecida pela violência provocada por gangues locais. Com um trabalho integrado das equipes de segurança e urbanismo, atualmente a comunidade tem bons índices de desenvolvimento.

domingo, 15 de abril de 2012

Novo túnel põe Guaratiba no mapa urbano sem projeto contra crescimento desordenado

14/04/2012 - O Globo

Túnel da Grota Funda será inaugurado até o fim de junho

RIO - Se Tim Maia fosse vivo, talvez estivesse na hora de ele começar a pensar numa nova rima para o clássico Do Leme ao Pontal. Previsto para ser inaugurado até o fim de junho, junto com o corredor viário Transoeste (Barra da Tijuca-Santa Cruz), o Túnel da Grota Funda deve trazer de vez as localidades de Barra e Ilha de Guaratiba para o mapa urbano do Rio de Janeiro. Mas, na nova fronteira da cidade, a expectativa por um transporte mais eficiente contrasta com o medo de um crescimento desordenado: a própria prefeitura admite que a legislação que rege as construções na região elaborada na década de 1970 está defasada. Um Plano de Estruturação Urbana (PEU) está sendo preparado, mas só deve efetivamente começar a valer daqui a cerca de um ano e meio.

FOTOGALERIA: A nova fronteira em imagens

Um olhar do outro lado da Serra da Grota Funda dá uma ideia do que pode estar por vir se não houver planejamento. O Recreio dos Bandeirantes, bairro que será diretamente ligado a Guaratiba após a inauguração do túnel, mais do que dobrou a sua população em dez anos. Em 2000, tinha 37.572 habitantes; em 2010, o censo do IBGE registrou 82.240. Nesse período apesar de ter ao menos uma legislação urbanística que impôs prédios de baixo gabarito entre boa parte da orla e a Avenida das Américas , a região viu crescer uma favela que ganhou o status de epicentro da desordem urbana no Rio: o Terreirão, que tem hoje cerca de 80 mil metros quadrados. Somente de 2009 para cá, a prefeitura demoliu 340 unidades comerciais e residências ilegais no bairro.

Se a cidade cresce sem normas e sem um plano de desenvolvimento que leve em conta a sustentabilidade social, quem se torna o grande urbanizador são os loteadores clandestinos alerta o arquiteto Canagé Vilhena, morador de Vargem Pequena, bairro que fica na mesma região e também sofre as consequências do crescimento desordenado.

Em Vargem Pequena, a população mais do que dobrou em dez anos: saiu de 11.536 pessoas em 2000 para 27.250 em 2010, segundo dados do IBGE. Também há problemas sérios de infraestrutura, como falta de asfaltamento ou rede de esgoto, além da proliferação de loteamentos ilegais. O próprio PEU da região, aprovado na Câmara em 2009, ainda é até hoje motivo de questionamento na Justiça.

Em Barra e Ilha de Guaratiba, mesmo sem o túnel pronto, a região mescla os ares de cidade do interior com os primeiros sinais de adensamento sem regras. O zoneamento em vigor coloca praticamente toda a área dentro da Zona Residencial 6. Ou seja, pela antiga lei, que leva em conta características estritamente rurais das localidades, só seria possível uma construção por lote de dez mil metros quadrados. Mas basta dar uma volta pelas principais ruas para ver que a realidade é diferente: condomínios de belas casas ou mesmo casebres com aparência favelizada dividem a paisagem com os sítios que ainda resistem.

O secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Dias, não quis antecipar detalhes do PEU de Guaratiba, alegando que ainda há apenas um esboço do trabalho final. A conclusão só deve sair no segundo semestre. A partir daí, ele admite que a tramitação na Câmara deve durar aproximadamente um ano.

Deveremos abrir a possibilidade para lotes menores, mas com gabarito baixo adianta Dias.

Enquanto o PEU não vem, a proliferação de irregularidades incomoda quem tem planos para a região. Morador de Copacabana, o arquiteto Marco Aurélio Barçante sonha há mais de 30 anos em tornar realidade o projeto de um miniresort num terreno que possui em Barra de Guaratiba, mas não tem como legalizá-lo:

Quem tem projetos interessantes para a região e quer fazer de forma legal não pode. Enquanto isso, os invasores vão fazendo seus loteamentos irregulares.

O secretário Sérgio Dias admite a dificuldade de fiscalizar:

Não conseguimos fazer policiamento em toda a cidade. Nós notificamos, autuamos, embargamos, mas ainda assim muitos insistem e constroem, mesmo sabendo que nunca terão o habite-se da prefeitura.

Às margens da Serra da Grota Funda, que até a inauguração do túnel é a principal ligação entre Recreio e Guaratiba, uma construção vem chamando a atenção de quem teme a favelização na região. Há cerca de dois meses, foi montado um terreiro de umbanda, que também serve de moradia, na beira da estrada. Na última quarta-feira, nos fundos dessa construção, repórteres do GLOBO flagraram operários preparando cimento e dezenas de tijolos armazenados. Uma mulher, que se apresentou como Ivânia Moura de Paiva, disse que é dona do imóvel e que tudo estava regular. Mas o subprefeito da Zona Oeste, Edimar Teixeira, afirmou que o local é área não edificável e que já foi entregue uma notificação aos infratores.

Na segunda-feira, vamos voltar ao local garantiu Teixeira.

Aposta em plantas e gastronomia

Em Pedra de Guaratiba que fica separada de Barra e Ilha por uma grande área de reserva, boa parte pertencente ao Exército , a favelização já é uma realidade. A comunidade do Rio Piraquê foi a que mais cresceu na cidade horizontalmente nos últimos anos. Entre 1999 e 2008, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), avançou 81%, passando de 234.116 metros quadrados para 423.532.

Para tentar promover o crescimento sustentável, quem mora e tira seu ganha-pão na região aposta na formação dos polos, que têm apoio da Secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico Solidário. Em Ilha de Guaratiba, uma associação criada recentemente reúne 38 produtores de plantas ornamentais. Mas a estimativa é que haja 400 na localidade. O agrônomo Ingo Haberle desenvolve um projeto-piloto de cultivo de palmeiras-reais como opção ao plantio de bananeiras nas encostas.

É preciso pensar em opções de renda que são sejam nocivas ao meio ambiente afirma ele.

Em Barra de Guaratiba, a já conhecida gastronomia de frutos do mar promete crescer. Ao longo do corredor viário, a prefeitura instalará sinalização remetendo ao local e há expectativa de confecção do guia das tias, contando a história dos famosos restaurantes da região.

No Recreio, um caminho só a pé para Grumari

Bem perto do Túnel da Grota Funda, que promete ser o mais moderno do Rio, existe uma via praticamente desconhecida, onde sequer é possível trafegar de carro, em pleno bairro do Recreio dos Bandeirantes. Uma bifurcação na Estrada do Pontal leva à antiga Estrada de Grumari. Ao longo de uma trilha de quase uma hora que termina na praia, há 35 casas e boa parte dos moradores já está por lá há décadas. Na primeira residência do caminho, está Jorge dos Santos, de 73 anos, que vive sozinho ali há 16 anos.

Vocês têm que vir com calma um dia para conhecer tudo direitinho convidou o hospitaleiro Jorge ao se despedir dos repórteres na última quarta-feira.

O caminho da antiga estrada é formado por grandes pedregulhos. Na entrada, foi improvisado com madeira e telhas um estacionamento para os carros de quem mora ali. Antônio Mateus, de 54 anos, contou que sobe e desce todos os dias a Serra de Piabas a pé. Ele reclama principalmente da falta de acesso a serviços básicos:

Já pedimos por diversas vezes para que a concessionária instale a energia elétrica para nós, sem sucesso. Queremos pagar a conta, mas, como não conseguimos, acabamos apelando para o gato (ligação clandestina).

O tempo de uma hora entre uma ponta e outra da Estrada de Grumari é o mesmo que a prefeitura promete de ganho no trajeto entre Santa Cruz e Barra da Tijuca, com a inauguração do Transoeste. A duplicação da Avenida das Américas está praticamente concluída do início do Recreio até o túnel, faltando só a conclusão de um viaduto, o que deve ocorrer até fim deste mês.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Avenida Radial Oeste terá faixa reversível a partir de segunda-feira

11/04/2012 - O Globo

Funcionará das 16h30m às 20h30m para desafogar o trânsito na área da Praça da Bandeira

RIO - Os motoristas que saem do Centro do Rio e do Elevado Paulo de Frontin, em direção à Zona Norte, deverão ficar atentos a uma importante mudança no trânsito: a partir de segunda-feira, dia 16, será implantada uma pista reversível na Rua Teixeira Soares (Avenida Radial Oeste), entre a Rua Pará e a agulha na altura da passarela do Metrô São Cristóvão, com funcionamento das 16h30m às 20h30m. A medida tem como objetivo melhorar o fluxo na região da Praça da Bandeira.

Desde a semana passada estão sendo instaladas placas de sinalização, para a orientação dos motoristas. Até a manhã desta quarta-feira, elas ainda estavam cobertas, mas numa delas era possível ler, parcialmente, "Fim da Reversível". Faixas amarelas também foram pintadas no asfalto e, nos próximos dias, painéis de mensagens variáveis vão divulgar informações. Operadores de tráfego vão orientar o fluxo de veículos.

Segundo a CET-Rio, carros de passeio terão livre acesso à reversível na Radial Oeste. Os veículos que utilizarem a faixa retornarão à Avenida Oswaldo Aranha próximo à estação do metrô São Cristóvão.

Ônibus e outros veículos pesados não poderão circular pela reversível. O órgão diz que é fundamental os motoristas respeitarem as orientações dos agentes de trânsito e a sinalização implantada na área.

Esta não é a primeira vez que a reversível é implantada na Radial Oeste. Em 2009, devido a obras de construção do viaduto da linha 1A do Metrô, a faixa foi usada para desafogar o trânsito, prejudicado após o fechamento de duas faixas de tráfego da via, no sentido Méier.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Hotel com X

08/04/2012 - O Globo, Fabio Brisolla

O Glória Palace de Eike Batista será reaberto às vésperas da Copa de 2014, vai consumir R$ 300 milhões em obras e quer figurar entre os dez mais do... planeta

Inaugurado em 15 de agosto de 1922, o Hotel Glória era um ponto estratégico. Ficava a apenas 1,5 quilômetro do Palácio do Catete, na época, sede do governo brasileiro. A  proximidade entranhou no lugar uma identidade com o poder que se estendeu por décadas. Epitácio Pessoa esteve na cerimônia de abertura na condição de presidente da República.  Foi o primeiro de uma série que incluiu Getúlio Vargas, Ernesto Geisel e Juscelino Kubitschek. O Glória serviu de residência para deputados, senadores e ministros, um fluxo de  hóspedes ilustres só reduzido após a transferência da capital para Brasília, em 1960. Entretanto, ainda passaram por lá os presidentes José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Oitenta anos depois, a história de um dos ícones da hotelaria carioca ganha novo capítulo, sob administração do empresário Eike Batista, o sétimo homem mais rico do mundo, que o  arrematou por estimados R$ 80 milhões em 2008. Desde então, o local fechou suas portas, o projeto inicial mudou, o cronograma atrasou, o BNDES liberou R$ 146,5 milhões e o curso  da reforma virou um mistério. Nas últimas semanas, a Revista O GLOBO visitou o canteiro de obras e teve acesso a detalhes do projeto.
Rebatizado de Glória Palace Hotel, o edifício segue na fase das fundações. Por trás da fachada, praticamente tudo foi demolido. Restaram apenas as colunas de sustentação e as lajes,  que vão ganhar reforços. Internamente, não há vestígios da arquitetura neoclássica anterior. O termo reforma, aliás, parece inapropriado. O que está em andamento é uma reconstrução, com metas ambiciosas. O plano é desbancar o Copacabana Palace, o Fasano (em Ipanema ou nos Jardins), o paulistano Emiliano e outras centenas de hotéis cinco  estrelas espalhados pelo planeta. - Nosso empenho é para que o Rio tenha um dos dez melhores hotéis do mundo - informa Eike Batista, em entrevista por email à Revista O GLOBO. Tarifas ainda não entraram na pauta, mas elas devem concorrer com as cobradas pelo Copa (de R$ 1.140 a R$ 5.600) e pelo Fasano (de R$ 1.330 a R$ 6.640).

Um símbolo do novo empreendimento promete ser a piscina, com fundo transparente, instalada na cobertura sobre o vão retangular existente entre os blocos de apartamentos. O  hóspede que transitar pela grande área de circulação do segundo andar, ao olhar para cima, poderá conferir a movimentação dentro do "aquário humano". O hotel vai manter os dez pavimentos, seguindo o padrão do edifício de 1922, que sofreu alterações ao longo dos anos, inclusive na fachada. Em todos os níveis, as paredes internas foram derrubadas para  atender às novas divisões estabelecidas. Os 610 quartos do antigo Glória serão convertidos em 346 unidades mais amplas. Reservou-se um espaço de 550 metros quadrados para um  salão idealizado para convenções e festas de casamento, neste último caso, tirando proveito da proximidade com o Outeiro da Glória. O Palace de Eike terá ainda três restaurantes, dois bares, um espaço definido como music lounge, cinco lojas e 18 salas de reunião. O polêmico heliponto, que tirava o sono da vizinhança, será
mantido.
O projeto acabou marcado também por uma ausência, o Teatro Glória, eliminado da estrutura ao longo da concepção do remodelado prédio. - Não condiz com a trajetória de grande empresário destruir um teatro com a história do Glória - critica Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio. - O Eike Batista disse publicamente que  pretendia erguer um outro teatro no bairro. E não se fala mais sobre esse assunto. Entre 1999 e 2001, a atriz Maria Padilha exerceu a função de diretora do Teatro Glória. Por lá, ela promoveu um show de Elza Soares, uma montagem de "Lisbela e o prisioneiro", dirigida por Guel Arraes, e uma leitura de textos de Nelson Rodrigues com participação de Marília Pêra. - É uma coisa bonita haver um teatro na rua, com fachada, letreiro. Todas as grandes cidades preservam casas assim - avalia Maria Padilha, que destaca a importância de haver uma conciliação. - Também não adianta ficar chorando pelo que não existe mais. O Eike é um cara que gosta do Rio. Acho que ele não va
i deixar essa história cair no esquecimento. Ele poderia buscar uma alternativa ali por perto, como, por exemplo, reativar o Teatro Adolpho Bloch.
Em outubro de 2010, o grupo EBX, em comunicado oficial, informou que "o projeto do Hotel Glória garante uma contrapartida cultural para a cidade, ainda a ser estudada e anunciada  até o fim do ano". Um ano e meio depois, ao ser questionado sobre o assunto, Eike escreveu resposta similar: - O compromisso de uma alternativa para a cidade ao teatro que antes  havia no hotel permanece, e vamos cumprir. Estamos buscando ainda o melhor projeto para devolver um novo teatro ao Rio. Situado no número 632 da Rua do Russel, o Hotel Glória foi construído pelo empreiteiro Rocha Miranda a poucos metros do mar, antes da existência do Aterro do Flamengo. Em maio de 1949, o engenheiro italiano Arturo Brandi adquiriu o prédio e passou a administrá-lo com a ajuda do sócio Eduardo Tapajós, que posteriormente assumiu o comando do hotel. Tapajós morreu em 1998, num acidente de helicóptero. Sua mulher, Maria Clara, a herdeira do patrimônio, foi quem negociou com Eike Batista.
O valor da venda, oficializada em 2008, girou em torno de R$ 80 milhões. Na época, Eike afirmou que gastaria a mesma quantia na reforma. Dois anos depois, o empresário conseguiu um empréstimo no BNDES de R$ 146,5 milhões para executar a obra. Nesta fase, o custo anunciado de revitalização do Glória já era outro, ultrapassando a marca de R$ 200 milhões. O recurso obtido no BNDES é parte de uma linha de crédito de R$ 1 bilhão que busca contribuir com a expansão da rede hoteleira nacional em função da Copa do Mundo de 2014. A REX,  de Eike, e a GB Copacabana Administração Hoteleira foram as primeiras beneficiadas pelo banco do governo federal. Até hoje, além da REX, sete empresas foram contempladas pelo programa batizado de BNDES ProCopa Turismo. Juntas, as outras receberam um total de R$ 130,5 milhões. Segundo a REX, os valores do Glória continuam subindo. No cálculo mais recente, a reconstrução já deve atingir a marca de R$ 300 milhões. Eike atribuiu as cifras atuais às mudanças realizadas no projeto. - Na prá
tica, o novo conceito de hotel de luxo, o retrofit para manter boa parte da estrutura e a fachada original elevaram o custo inicial - justifica o dono da EBX. - Não estamos poupando recursos para recuperar e manter a  originalidade do prédio! Nosso plano foi ajustado para equacionar o déficit hoteleiro na cidade, em especial depois da vitória do Rio como sede das Olimpíadas.

No canteiro de obras, operários e engenheiros estão em plena atividade. O trabalho ocorre simultaneamente no edifício principal e no anexo. Além disso, um terceiro prédio será  erguido entre as duas construções num espaço onde existe uma rocha, que vem sendo recortada paulatinamente. Os engenheiros envolvidos na obra ressaltam que não foi necessário usar um explosivo sequer, como costuma ocorrer em situações semelhantes. Para extrair cada pedaço, eles recorrem a um equipamento especial que vai cortando a pedra aos poucos,  sem barulho ou tremores no solo.

Com tantas atividades em andamento, o desafio é manter a frente do prédio intacta. O Hotel Glória não é tombado por qualquer órgão de patrimônio histórico, seja federal, estadual ou  municipal. Mas, curiosamente, a fachada acabou preservada por causa do Edifício Milton, um prédio residencial na Rua do Russel, que integra a lista de imóveis tombados. - A fachada do Glória é preservada pelo patrimônio histórico municipal por ser classificada como entorno do Edifício Milton. É um paradoxo. O hotel é considerado um satélite do residencial, quando deveria ser o contrário - diz Washington Fajardo, subsecretário municipal de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design. Ele ressalta, no entanto, que a  arquitetura neoclássica da construção acabou ofuscada pela ação de seus antigos proprietários: - O hotel passou por diversas reformas que nunca respeitaram suas características originais. Ao longo dos anos, ele foi sendo descaracterizado. E talvez por isso não tenha sido alvo direto do patrimônio histórico.

Para manter a fachada no lugar, um outro prédio vem sendo erguido por  dentro do antigo. Novas colunas de sustentaçãovão dar suporte às lajes, que serão reforçadas. Até agora,  segundo informou a REX, 50% das fundações da estrutura adicional já estão concluídas. Encerrando esta parte, a obra começa efetivamente a subir, andar por andar. - É uma intervenção que exige muito cuidado. Estamos reconstruindo o prédio a partir das fundações. Oitenta pilares novos vão surgir por dentro da estrutura antiga - diz Marco Adnet, CEO da REX, acrescentando que a atual fase da construção provocou boatos equivocados. - Chegaram a dizer que a obra havia parado, mas isso é uma grande bobagem. Ex-diretor nacional de vendas da Construtora Rossi, Adnet é profissional conceituado do mercado imobiliário. Ele foi contratado por Eike, em 2010, para "dar mais celeridade à operação".

Antes da chegada do executivo, a REX havia desenvolvido um projeto, assinado pelo escritório do arquiteto Paulo Casé, que previa a instalação de uma torre de escritórios no anexo  do Glória. A ideia acabou descartada. E a REX escalou o designer americano Jeffrey Beers para trabalhar em parceria com Casé. - Entre as intervenções mais importantes que fizemos  no hotel estão o novo anexo, o atrium e a piscina com fundo de vidro do terraço - cita Jeffrey. Ao seguir pela entrada principal na Rua do Russel, o hóspede vai encontrar a recepção  principal. E, acessando o elevador, vai chegar ao atrium citado por Jeffrey, uma grande área de circulação, que ficará no segundo andar. - Na versão atual, o edifício original e os dois anexos estarão integrados. Tudo fará parte do hotel. Sem divisões - explica Hamilton Casé, sócio do escritório de Paulo Casé.

Pela variedade de serviços, o empreendimento do Glória pretende atender a um grupo heterogêneo, de celebridades internacionais a turistas em busca de lazer em praias cariocas,  passando pelos executivos que vêm ao Rio a trabalho. A REX, no entanto, já definiu o projeto de um segundo hotel com 454 quartos, na Avenida Rui Barbosa, focado no turismo de negócios. O edifício pertence ao Clube de Regatas do Flamengo, que, nos últimos meses, vem negociando a instalação do hotel. Inauguração, no entanto, só depois da Copa do Mundo.  No caso do Glória, a intenção de Eike Batista era estar com tudo pronto em 2011. Mas houve um atraso em seus planos. A REX informa que o Glória Palace Hotel abre suas portas no  primeiro trimestre de 2014, em sistema de soft opening.